O Festival de Teatro Cego é um projeto da R.Gamboa Arte & Cultura com patrocínio da TAG, por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura.
CLAREAR - O Espetáculo conta a história de uma diarista e sua patroa que passam, ao mesmo tempo, por um tratamento de câncer. As duas encontram-se em momentos diferentes da doença, com a diarista praticamente curada e a patroa iniciando a quimioterapia. A relação dessas duas mulheres mostra as diferentes posturas e dificuldades que pessoas de classes sociais distantes têm diante desse desafio, ao mesmo tempo em que a compreensão das condições de cada uma delas faz nascer uma amizade que se tornará a principal ferramenta de suas lutas. Apesar do tema delicado, a trama se desenvolve com muita leveza, bom humor e sensibilidade, levando o espectador a uma reflexão que aprofunda a discussão sobre aspectos emocionais, sociais e comportamentais da doença. A trama fala sobre generosidade, empatia, amor, medo, superação, respeito e autoestima. Por acontecer completamente no escuro, a peça se utiliza ainda mais da percepção do espectador, fazendo com que o tema proposto possa ser tratado com ainda mais sensibilidade e aprofundamento.
INFORMAÇÕES IMPORTANTES
- A peça acontece completamente no escuro, em blackout total. Não são usadas vendas. O público fica no palco juntamente com os atores e com a produção, colocado dentro da cena com uma proximidade tão grande que pode sentir as movimentações e até tocar o cenário.
- Para segurança total da plateia, artistas e produção, a sala escura onde os espetáculos acontecem é monitorada em tempo integral por uma pessoa da produção, através de câmeras de infravermelho e um sistema de iluminação emergencial é instantaneamente acionado em caso de emergência.
- Antes do início de cada sessão, o público recebe orientações sobre como proceder para que o espetáculo aconteça da melhor forma possível (desligar celulares, retirar relógios luminosos dos pulsos, cobrir camisetas ou outros artigos de vestuário que brilham no escuro), além de orientações de segurança (como se locomover dentro do espaço, colocar bolsas e sacolas embaixo das cadeiras para não atrapalhar a circulação de atores e produção, como pedir para sair no meio do espetáculo se houver necessidade)
- Ao abdicar da visão, o público compreende a trama através de seus outros sentidos (olfato, paladar, tato e audição). Durante o espetáculo, sons, vozes e cheiros chegam aos espectadores vindos sempre de locais diferentes, dando a sensação de que eles estão realmente inseridos no ambiente cênico. Tais sensações são o caminho para a compreensão da trama, mesmo ela ocorrendo completamente no escuro. A proposta é estabelecer uma linguagem inédita no teatro
- O espetáculo conta com atores com deficiência visual, que passam a ser peças de extrema importância quando o trabalho ocorre no completo escuro. Cumpre-se assim, também, um papel social, inserindo esses profissionais no mercado de trabalho e abrindo a possibilidade de uma forma de expressão artística que, até então, imaginava-se inviável para pessoas com deficiência visual.
O QUE É O TEATRO CEGO?
Desde 2012 a R.Gamboa Arte e Cultura vem desenvolvendo o Teatro Cego, um formato teatral onde a peça acontece completamente no escuro, proporcionando, através da arte e do entretenimento, uma experiência única ao público, convidando-o a abdicar da visão e a compreender a trama através de seus outros sentidos (olfato, paladar, tato e audição), utilizando-se de aromas, música e sensações táteis.
A peça teatral tem em seu elenco atores com deficiência visual, cumprindo, assim, um papel social através da arte. Porém, para que haja uma integração, o elenco nunca é formado só por atores com deficiência visual.
Os espetáculos ''O Grande Viúvo'', ''Acorda, Amor!'', ''Clarear'', “Um Outro Olhar”, “O Reino de Lindsor”, “A Festa da Inclusão” e “Another Sight” emocionaram espectadores em inúmeros teatros, dentro e fora do Brasil, e tornaram-se grandes sucessos de público e de crítica.
Em agosto de 2025 o Teatro Cego foi um dos representantes do Brasil no Fringe Festival, em Edimburgo, o maior festival de arte do planeta, com sucesso de público e de crítica, sendo inclusive indicado aos prêmios de Melhor Espetáculo de Neurodiversidade e Melhor Experiência em um Espetáculo durante o festival.
O QUE É O FESTIVAL DE TEATRO CEGO?
O Festival de Teatro Cego é um projeto que está levando três espetáculo da companhia (‘Acorda, Amor!’, ‘O Grande Viúvo’ e ‘Clarear’) para cinco capitais brasileiras: São Paulo, Rio de Janeiro, Vitória, Aracaju e Recife. Cada uma das cidades receberá duas apresentações de cada espetáculo, somando seis sessões em cada capital.
PARCEIROS
Durante esses quatorze anos de atividades, a Companhia de Teatro Cego trabalhou em parceria com diversas instituições. Entre elas, o BOS – Banco de Olhos de Sorocaba, a Secretaria Estadual de Saúde de São Paulo, a Laramara - Associação Brasileira de Assistência à Pessoa com Deficiência Visual, a Fundação Dorina Nowill para Cegos, a Cabelegria, que doa perucas para mulheres em fase de quimioterapia e a Sight Scotland, em Edimburgo.
O PROCESSO DE CRIAÇÃO
O processo de criação da Companhia de Teatro Cego parte sempre dos textos, que já são escritos pensando no Teatro Cego, pois as falas dão indicação de muitos elementos e situações que o espectador não conseguiria identificar sem a visão. O espaço para sons e aromas muito característicos também é priorizado para que a produção possa atuar de forma consistente durante o espetáculo. Porém, tudo isso é feito de maneira que não haja exagero. Não se pode permitir que os meios justifiquem os fins. A ocupação do espaço também é uma preocupação que vem logo no início do processo. A trama tem que ser encenada sempre no mesmo espaço, pois os espectadores estão sentados em suas cadeiras junto com os cenários. As mudanças de cenas são feitas através de músicas e ou aromas. Uma mesma música é repetida sempre que a cena volta para um mesmo cenário. O mesmo pode acontecer com um aroma. O cenário, apesar da escuridão, é de extrema importância para a compreensão do espaço. Portas, armários, mesas, cadeiras, escadas, louça, talheres, camas. Os objetos cenográficos se mostram presentes através de seus sons ou por simples citação dos personagens. Uma característica muito importante do espaço cênico é a forma da sua apresentação. Ao contrário de uma peça convencional, onde o espectador vê primeiro o cenário, que depois vai sendo preenchido por movimento e vida, no Teatro Cego tudo começa em uma escuridão profunda e total. Após a entrada dos atores, com a movimentação e utilização dos espaços, é que o cenário vai se revelando. Os espetáculos são sempre compostos por atores com deficiência visual e atores videntes. A ideia é integrar.
Imagine ter que criar um acesso a cadeirantes para um andar acima do piso térreo. Pessoas não cadeirantes podem subir facilmente pela escada. Então cria-se um elevador para as pessoas com deficiência física. Isso é acessibilidade. Porém, uma rampa serviria muito bem aos dois públicos. Isso é integração.
O processo de criação dos personagens começa com a leitura branca do texto em uma mesa, como em qualquer outra montagem convencional. Enquanto alguns atores se utilizam do tradicional texto no papel, riscado com lápis e grifado com marca-texto, outros leem em braile. Outros ainda contam com aplicativos leitores de tela em um celular ligado ao ouvido por um fone e falam por cima do que ouvem. É como um ponto. Entre essas leituras, os atores e o diretor praticam exercícios de cognição, criando conexões entre os personagens através de códigos inconscientes. Isso ajuda a desconstruir a comunicação rasa que utilizamos na maior parte do tempo e desfaz alguns vícios, tanto de expressão quanto de compreensão. Os ensaios vão então para um espaço demarcado, determinando os locais de cenografia e público. Algumas marcas são colocadas para guiar os atores. O cenário é uma das referências. Em alguns locais, o piso tátil é usado. Os atores com deficiência se locomovem, a princípio, com bengalas (guias) ou com a ajuda da produção. Quando o espaço é completamente dominado, apaga-se as luzes e retira-se as bengalas dos atores com deficiência visual. Enquanto isso, a produção está pesquisando aromas e sons. Quando os cenários são montados, junta-se tudo nos ensaios finais.
“No princípio era o caos” O processo de criação do Teatro Cego é todo baseado na desconstrução de personagens e espaços. E essa reconstrução é feita a cada espetáculo, diante do público.