Fundação Cidade das Artes

Notícias » Entrevista com Marília Flores e Gilda Pitombo

Fevereiro de 2014

dia 21, Sexta

Entrevista com Marília Flores e Gilda Pitombo

donjuanentrevista

Trazemos para vocês a entrevista que fizemos com Marília Flores e Gilda Pitombo sobre o Projeto Interlocuçôes: Psicanálise e Literatura.

Don Juan é um personagem literário tido como um símbolo da libertinagem. Vocês partem do pressuposto de que a arte, assim como os mitos, funcionam como veículos para a expressão do inconsciente coletivo?

Marília: Freud escreveu o texto “Escritores Criativos e Devaneios” (1908) para responder a questão de onde os escritores criativos retiram as suas ideias. Concluiu que a fonte dessas ideias são os desejos que estão presentes sob o modo reprimido porque são considerados inadmissíveis ao Eu, não só do autor, mas também de outros do seu convívio. São desejos infantis, proibidos, ameaçadores, que se fossem expressos de outra forma causariam vergonha, desprazer, dor moral e risco à vida. O tratamento estético que o artista sabe dar disfarça estes desejos, permitindo que ganhem expressão e liberem, por identificação, prazer também ao leitor/espectador. Sendo assim, a arte não é veículo do “inconsciente coletivo”, ela é um modo de expressão dos desejos inconscientes que os atenua esteticamente ligando-os ao belo, portanto à moral. Freud não adotou a noção de Jung de “inconsciente coletivo”. A ideia de inconsciente coletivo pressupõe que todos teriam os mesmos desejos, o que definitivamente não é verdade. Penso que quem pode ter um inconsciente coletivo é a massa, o grupo, onde a unidade do eu de cada individuo se amplia afrouxando o censo crítico e exacerbando o narcisismo liderado por um ideal. O inconsciente freudiano é ontico, isto é, diz respeito à singularidade de cada um, e a relação do sujeito com o próprio desejo é de sua inteira responsabilidade, o que aponta para a ética. A leitura que estamos propondo do mito Don Juan pretende deixar de lado, tanto quanto possível, o enfoque moral; isto para que possamos apreender a configuração do desejo em cada versão.

 

Gilda: Este termo “inconsciente coletivo” é Junguiano (psicologia analítica). Não trabalhamos com esta teoria, seguimos Freud e Lacan, que fez uma releitura de Freud. Para Freud, o inconsciente é individual e não coletivo. D. Juan representa uma das matrizes do individualismo moderno, bem como Fausto, D. Quixote e Robinson Crusoé. D. Juan encarna o mito individual do neurótico sedutor. “As criações poéticas engendram mais do que refletem as criações psicológicas”, Lacan. O importante nesta frase é ressaltar que a literatura é anterior às questões psíquicas.


Vocês consideram o "donjuanismo" um tipo de personalidade ou há algum traço de patologia?

Marília: Certamente o “donjuanismo” pode ser um tipo de personalidade, ou melhor, um tipo de caráter, como dizia Freud, uma qualidade do eu, contudo o próprio ao desejo é escapar a estas configurações egóicas, o que pode trazer conflitos neuróticos. Diferente do modelo médico, para a psicanálise a distância entre o normal e o patológico é de grau, ou seja, o sintoma não é algo a ser extirpado por ser estrangeiro ao sujeito, ele é uma formação do inconsciente. Aquilo que é vivido pelo próprio sujeito como sintoma, na verdade embute fixações da energia psíquica, desejos inconscientes.

Gilda: Com certeza nos deparamos a todo o momento com homens e mulheres encarnando este personagem, que faz parte de uma fantasia cultural. O filme “Ninfomaníaca” de Lars Von Trier retrata uma jovem compulsiva sexualmente, penso ser patológico, na medida que a personagem não consegue sentir prazer e a sedução serve como ato punitivo e auto agressivo. Há uma cena em que seu pai está morrendo e ela foge para o sexo, como uma forma de se anestesiar do sofrimento. Em psicanálise chamamos este ato de ato sintomático.

A partir de que ponto o comportamento sedutor pode se transformar em um problema?

Marília: A sedução é própria ao “parlêtre”, ser da fala, como dizia Lacan. E o ato da fala já é uma demanda de amor. Podemos apontar como uma impossibilidade ao sujeito na histeria, cessar de seduzir, isto porque ele se deseja completo, sem falta, e tenta se ajustar ao que supõe que os outros desejam dele. É um desastre!

Os Dons Juans estão no meio de nós?

Marília: Sim, em certa medida, quanto à sedução e o desejo, somos todos Don Juans.


Há mulheres com essas caraterísticas, Dueñas Juanas? Elas sofrem muito preconceito, ainda?

Marília: As mulheres sempre seduziram os homens. O que elas despertam neles às vezes lhes parece muito perigoso, especialmente naqueles que estão com muita dificuldade quanto ao próprio desejo. Quanto ao ‘donjuanismo’ na mulher como traço de caráter, acredito que ainda é muito mal visto pela maior parte das populações do mundo.

Gilda: Apesar do don juanismo ser predominantemente um comportamento masculino, hoje em dia o encontramos entre as mulheres. Elas são movidas pela mesma compulsão da conquista, pela inclinação de relacionamentos impossíveis, com pessoas que oferecem uma situação desafiadora. Baudelaire define modernidade como o efêmero, o fugaz, o contingente. O don juanismo é muito atual, divirta-se sem implicação nos seus atos, o imperativo é: goze a qualquer preço. Portanto, tanto para os homens ou mulheres, o don juanismo representa o engodo da plenitude, pois permite o equívoco imaginário de encontrar alguém perfeito. A cara-metade.

Não acho que se trate de preconceito, mas sem dúvida para o homem é mais difícil lidar com mulheres “Dueñas Juanas”. No consultório, escutei um rapaz de 23 anos que antes de sair para as baladas, tomava Viagra, para assegurar-se de seu desempenho sexual. As meninas o assediavam muito e ele ficava muito inibido.

Qual foi o mote para esse trabalho? Aonde vocês pretendem chegar com ele?

Marília: Nosso projeto Interlocuções: Psicanálise e Literatura existe também em Ipanema, funciona dentro da Sociedade de Psicanálise Iracy Doyle. Lá, estamos lendo “Os Irmãos Karamasóv” de Dostoiévski. Nos últimos nove anos lemos: Fausto, Don Quixote, Robson Crusoé, as tragédias escritas por Sófocles, Eurípides e Shakespeare. A interlocução com a literatura, desde Freud, sempre foi cara à psicanálise, afinal como conhecer a alma humana sem consultar os poetas? Eles nos fornecem um riquíssimo material para a nossa pesquisa, o que melhora a nossa escuta na clínica. Concordo com Epicuro que escreveu: somos humanos, nada que é humano nos é estranho. Quanto ao grupo na Cidade das Artes, a nossa principal aposta é, através da leitura, dar voz às pessoas, possibilitar que elas se expressem, interpretem, levantem questões, quebrem mitos, enfim, se enriqueçam e se libertem dos grilhões dos preconceitos que são os responsáveis pelo enrijecimento do eu.

Gilda: A interlocução com a Arte é muito enriquecedora na transmissão da psicanálise, Freud já dizia que os escritores, os poetas estavam à frente dos psicanalistas e precisávamos aprender muito com eles, pois são os grandes conhecedores da alma humana. O objetivo deste espaço é criar um diálogo entre a literatura e a psicanálise, partilhando o mesmo solo comum da linguagem. São ambas ciências humanas e que se pretendem interpretativas, portanto, podem enlaçar-se sem reservas. A nossa proposta também é debater filmes que abordem este tema. Iniciaremos com Valmont, uma versão do clássico Ligações Perigosas, a perversa Marquesa de Merteuil, na segunda metade do sec. XVIII, na França, é amante de Valmont, que se diverte seduzindo homens e mulheres da corte. A Marquesa então propõe um desafio maior a Valmont: seduzir uma mulher que parece impossível, a recém-casada madame de Tourvel. O amante parte para a conquista de forma implacável. No processo de sedução ele acaba se apaixonando pela mulher casada. Em Valmont, o sedutor pergunta se de fato um homem conseguiria mudar a forma de conquistar uma mulher. Um homem pode mudar?

Chamaremos alguns psicanalistas para debatermos a respeito do filme. Enfim, este espaço servirá para divulgarmos a psicanálise em extensão, ou seja, a psicanálise é um saber conjuntural, que tem como exercício a prática da dúvida em constante movimento interpretativo.

 

Participem dos encontros às sextas-feiras das 15h às 16h30min, na Sala de Leitura da Cidade das Artes. A atividade faz parte da nossa programação de Arte e Educação e é gratuita.

 

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